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    A força dos 'microguardiões' das lavouras

    Matéria por Fernanda Pressinott | De Berkel en Rodenrijs (Holanda)

    Neste gélido inverno na Holanda, com os termômetros marcando, em média, 2ºC, uma estufa onde se vê uma plantação de rosas brancas parece o ambiente mais tranquilo, acalentador e bucólico do universo. Olhando do alto, lembra o inicio de um desenho da Disney, onde, no meio das flores, princesas e cavaleiros vão se apaixonar. Mais de perto, porém, essa ilha de luz e calor esconde um universo paralelo que lembra mais os filmes B japoneses, com direito a muita tecnologia, criaturas estranhas com cara de mutantes e predadores que matam suas vítimas com requintes de crueldade. E nesse roteiro, estranhamente, os seres humanos torcem para os... predadores.

    Os heróis em questão são, na verdade, microrganismos e insetos que, como um exército de justiceiros, trabalham para salvar as rosas, que podem murchar, diminuir ou mesmo morrer por causa da infestação de outras pragas. Um desses guardiões, por exemplo, tem a tarefa de se aproximar dos tripes (vilões conhecidos em lavouras de flores), grudar suas patas na vítima enquanto ainda são larvas e sugar todo seu corpo. Uma cena forte, sem dúvida, mas com isso o Amblyseius swirskii, o ácaro sugador em tela, impede que o tripe perfure as folhas das flores, cause manchas nas folhas e impeça a planta de crescer. O mesmo ácaro evita a proliferação de moscas brancas, enquanto outro, o Phytoseiulus permisimilis, come o Tetranychus urticae (um ácaro rajado) enquanto este tenta atacar as rosas deixando um rastro de folhas com coloração marrom, endurecidas e secas.

    Não é possível enxergar essas batalhas a olho nu. É preciso chegar muito próximo às folhas das flores e usar uma lupa para ver os microrganismos. Mas os holandeses não se dão ao trabalho de acompanhar essa movimentação microscópica. Em geral, eles já descobriram que os "predadores-justiceiros" fazem assustadoramente bem o seu trabalho. Feita a limpeza, os produtores têm de se preocupar apenas em recolher suas flores das estufas e dos campos e entregá-las a seus clientes, hoje espalhados em mais de 80 países.

    Como em tantas outras, nesta estufa em Berkel en Rodenrijs os homens não se movem. As rosas sim. Plantadas em canaletas a cerca de 40 centímetros do chão, cada uma tem um pedaço de terra de pouco mais de 30 centímetros cúbicos para crescer. Elas recebem água gota a gota por um sistema de distribuição e, na hora da poda, as canaletas se movem por sistemas de rodízio ate o trabalhador, que, cirurgicamente, corta o caule e coloca a rosa em uma máquina cheia de pinças. Essas pinças são tão delicadas quanto os botões de rosas que seguem automaticamente para outra sala, onde têm seus caules ajustados a um tamanho padrão e são embaladas de dez em dez em um buque prontinho para ser presenteado do outro lado do mundo. A mão humana entra em ação só para pegar o buquê e encaixotá-lo.

    Mas e os bichinhos bons e maus? Nesta estufa de 4 hectares, a caçada continua, mas se desloca das flores já cortadas em direção a uma parte mais distante, em uma sucessão de escaramuças que, no fim, fazem toda a diferença O uso de insetos, fungos ou bactérias representam menos de 1% da proteção de cultivos no mundo, dominada por agentes químicos, mas a tendência é que o mercado biológico deslanche, inclusive no Brasil. Essa é a aposta da Koppert, multinacional holandesa que vende os "justiceiros" que agem na estufa de rosas de Ronald Sonnerveld, visitada pelo VALOR , e para produtores de flores e outras culturas em diversos mercados, o brasileiro entre eles. Promissor, o segmento já atrai investimentos de gigantes globais de agroquímicos como Bayer CropScience, Syngenta, Basf e Monsanto.

    No verão, Sonnerveld usa três produtos da Koppert a cada duas semanas; no inverno, a cada três: dois deles são pulverizados com uma máquina por toda a plantação e combatem o ácaro rajado. O terceiro é colocado em pequenos saquinhos de papel com ovos do Amblyseius swirskii, de onde saem ácaros predadores para sugar os tripes. "Uso controle biológico há sete anos. Fui um dos pioneiros a testar nas rosas". Segundo Sonnerveld, com o uso de pesticida químico ele matava todas as pestes da cultura, porém as rosas ficavam com cerca de 20 centímetros e a folhas amarelavam rapidamente. Hoje, com as aplicações dos biológicos, as rosas chegam a 65 centímetros e há um verde uniforme e vistoso nos caules e folhas. Ele afirma que planta flores há 30 anos. Hoje, produz 40 mil rosas por dia no verão e 22 mil no inverno.

    Paul Koppert, presidente mundial da empresa que leva seu sobrenome, lembra que existe uma preocupação cada vez maior com as consequências dos resíduos químicos nos alimentos e nas outras lavouras - daí sua convicção de que esse mercado crescerá vertiginosamente nos próximos anos. Entretanto, devido ao custo mais elevado, mas difícil de ser calculado na comparação com o uso de químicos, o executivo diz que será praticamente impossível acabar o uso de defensivos tradicionais nos próximos anos. "O que fazemos é tentar minimizar o uso de substâncias estranhas à natureza", diz. Sonnerveld, o produtor de flores, não revela os custos do uso de biológicos e afirma que apela aos químicos quando necessário. "Mas, nos últimos sete anos, utilizei defensivos químicos duas vezes".

    Na Europa, onde o mercado consumidor é mais exigente, o uso de controle biológico é mais avançado, mas a Koppert também acredita em crescimento expressivo no Brasil. A meta do presidente da filial brasileira, Gustavo Herrmann, é crescer 100% em 2015. Neste ano, o faturamento da subsidiária deverá alcançar R$ 30 milhões, ante os R$ 18 milhões de 2013. A receita global da Koppert deverá chegar a € 150 milhões em 2014.

    Diferentemente do que ocorre na Holanda com as flores ou com os legumes e verduras exportados, as lavouras brasileiras são em campos abertos e com tamanhos dezenas ou centenas de vezes superiores. Por isso, os produtos vendidos são outros. A aposta maior da empresa por aqui é no vírus nucleopolyhedrovirus Helicoverpa armigera, que combate a lagarta Helicoverpa armigera, que trouxe prejuízos de mais de R$ 2 bilhões aos produtores de algodão na safra 2013/14 no Brasil. O vírus é pulverizado em cima da folha, quando a soja já está em fase de crescimento; quando a lagarta o ingere, é infectada e morre. Uma lagarta passa o vírus para a outra, o que acaba por provocar uma infecção na espécie.

    Também no combate à Helicoverpa é utilizada a vespa Trichogramma pretiosum, que se alimenta dos ovos da lagarta e deposita os seus na mesma cápsula. Mais uma vez não é um processo bonito, mas é eficiente. "Há produtores da Bahia que fizeram 15 aplicações de defensivos e não conseguiram eliminar a Helicoverpa. Com o controle biológico integrado aos agentes químicos, o resultado é mais rápido e mais barato", diz Herrmann. Os produtos da Koppert que combatem a Helicoverpa foram liberados em março de 2013 no Brasil pelo Ministério da Agricultura como parte de uma ação emergencial para salvar a safra das tais lagartas. Desde então, a área coberta por um dos produtos da empresa holandesa aumentou de zero para 500 mil hectares.

    O custo para o produtor é difícil de ser medido porque depende da extensão da área e do tamanho da infestação. "Se compararmos o preço do litro do defensivo químico e do nosso, o nosso é mais caro. Mas o custo por hectare para o produtor nem sempre é maior porque ele faz menos aplicações, com resultados melhores e com grãos de maior valor", afirma Herrmann.

    Afora o gasto com o produto em si, o produtor que opta pelo controle biológico precisa de uma geladeira e de planejamento. Os micro e macrorganismos têm de ser aplicados poucos dias após serem recebidos na lavoura -e, enquanto não são distribuídos nas plantas, a maioria precisa ficar armazenada no escuro e a temperaturas de, no máximo, 8ºC.

    Além do vírus para o combate à Helicoverpa, a Koppert - que chegou ao Brasil em 2008, mas montou uma subsidiaria apenas em 2011 - que focar seus esforços no combate a broca do café e a mosca branca, pragas das lavouras de café e soja, que estão preocupando os produtores. Mas além destes, a Koppert espera o registro de outros 23 bioinseticidas pelo Ministério da Agricultura (Mapa). "O processo é mesmo lento, com muitas questões ambientais e de saúde levantadas pelo Ibama, Anvisa e Mapa. Mas não consideramos o processo de autorização demorado no Brasil. Em alguns países é ainda mais lento". Também à espera de aval está o uso de uma abelha que poliniza lavouras de legumes e frutas. Na Holanda, a "bumblebee", como é chamada, é um sucesso e faz a polinização dos tomates por exemplo.

    A importância do segmento para as gigantes globais pode ser medido por suas investidas. A Monsanto adquiriu em janeiro de 2013 a americana Agradis, que utiliza micróbios para proteger as culturas de trigo e milho. A alemã Basf comprou em novembro de 2012 a americana Becker Underwood, especializada no tratamento de sementes, e no Brasil criou parcerias com a estatal Embrapa para desenvolver uma bactéria combatente à ferrugem asiática. A Bayer CropScience também comprou em 2012 uma americana, a AgraQuest e, em 2013, a alemã Malchow, ambas produtoras fungos e bactérias para combate à pragas nas lavouras. No mesmo ano, a suíça Syngenta anunciou a compra da Pasteuria Bioscience, também de defensivos biológicos e, desde então, afirma a cada relatório trimestral que vai investir cada mais nesse segmento. Paul Koppert não teme a concorrência. Para ele, é importante que grandes empresas estejam no mercado para ajudar a desenvolvê-lo.

    A jornalista viajou a convite da Koppert.

    Matéria original no site do Valor Econômico - http://goo.gl/fOkJSq

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